segunda-feira, 12 de outubro de 2015


Eu nunca sofri nenhum acidente de circo e espero que isso continue assim.

Me preparei para um ringue:

enfaixei os pés com um cuidado amoroso, a atadura dando a volta para esconder o dedo mindinho;

subi pela corda, ducentenas, tricentenas, milésimas, a ficção da infância,

minhas sapatilhas eram cor de pele

e meu maiô dourado, sem figuras,

serei muito tradicional,

purpurina nas minhas sobrancelhas.

Meu nome é Beatrice Martins, tenho 34 anos, sou publicitária, ginasta, artista de circo. Não sou muito de me arriscar. Tomo cuidado. Treino bastante. A destreza torna a queda improvável. Foi um acidente que me tirou da Ginástica. Um acidente traumático, mas ao mesmo tempo, acolhedor.

A pele é uma maçaroca de hematomas, cascas de machucados, por debaixo tendões distendidos e religados, ligamentares, ossos que se cruzaram ao contrário, um alfabeto em cauterização, o sangue coagulado nos hematomas flui quente para o rosto, para a palma das mãos, para a planta dos pés. O ombro deslocado faz deslizar como se escorrega ao sonho

Pouco tempo antes o ônibus bateu na carreta. Quer dizer, a carreta bateu no ônibus em que eu viajava e destruiu toda a parte da frente. Pouco tempo depois acordava no asfalto com um anjo perguntando o telefone de casa. Pouco antes cortariam a minha calça jeans favorita. O osso exposto. Nada doía. Pouco tempo antes, como ginasta de treinamento de elite, meu objetivo era chegar numa Olimpíada. Pouco depois a manhã veio sobrepondo a madrugada. Pouco tempo antes todas as pessoas que estavam na minha frente morriam e eu fui retirada debaixo dos escombros. Deste momento, eu não me lembro de nada.

Muito tempo deitada.

Trapezistas são supersticiosos. Não querem falar dos acidentes ou recordá-los, negam que haja verdadeiro perigo.

Pouco tempo depois eu ia querer que “eles” resolvessem logo o “assunto”, porque tinha uma competição para participar. Um tempo depois os pés não tocariam o solo. Pouco tempo antes meus tios aguardavam na sala de espera, meu pai iria chegar em seguida. Um tempo depois, em Salvador, eu saía de dentro da caixa do mágico pra fazer tecido, numa lona montada na beira da praia. Pouco tempo antes o pé foi reconstruído com arame. Fios de Kirshner. Pouco tempo depois apaguei e acordei no avião. O corpo doía de tanto ficar deitada, a vida se resumia a uma cama, a um quarto. Pouco tempo antes pensaram que era hemorragia interna. Era a segunda menstruação. O corpo doía de tanto fazer nada. Picotou pele, raspou osso, amarrou, grudou, costurou carne. Remendou. Pouco tempo depois já era outra. Nunca mais competi.

Em 2008, eu fiz 319 apresentações, em 189 dias. Dois números por espetáculo. Foram 21 cidades:

Las Vegas,

Savannah,

Jacksonville,

Atlanta,

Greenville,

Raleigh,

Richmond,

Brooklyn,

Queens,

Bronx,

Newark,

Washington,

Baltimore,

Norfolk,

Charlotte,

Buffalo,

Boston,

Cleveland,

Indianapolis,

Houston e

Dallas.

Não teve um único espetáculo em que o Big Tony não me dizia: It’s show time, babe! It’s show time! Eu não terminei a turnê.