Sou um boxeador.
Me preparo para o ringue:
enfaixo
os pés com um cuidado amoroso, a atadura dando a volta para esconder o dedo
mindinho;
subo
pela corda, ducentenas, tricentenas, milésimas, a ficção da infância,
minhas
sapatilhas são cor de pele
e
meu maiô é dourado, sem figuras,
sou
muito tradicional,
purpurina nas minhas sobrancelhas.
Um nadador que não sabe nadar, mas também faz
os seus preparativos.
(Kafka, by Deleuze)
No ringue:
sem sopros, sem intenções, sem meias
expressões.
(minha mãe dizia: “sofrer para bonita ser”)
mas o truque penoso, o mais poderoso,
curva,
salto, retomada
peito de pombo, cintura esquerda, rim.
a pele é uma maçaroca de hematomas, cascas de
machucados, por debaixo tendões distendidos e religados, ligamentares, ossos
que se cruzaram ao contrário, um alfabeto em cauterização, o sangue coagulado
nos hematomas flui quente para o rosto, para a palma das mãos, para a planta
dos pés.
O ombro deslocado faz deslizar como se escorrega ao sonho.
O ombro deslocado faz deslizar como se escorrega ao sonho.
Porque não se teme a queda, mas a suavidade da
queda;
não o chão, mas se abandonar sem reservas; não a dor do golpe, mas o toque do outro.
não o chão, mas se abandonar sem reservas; não a dor do golpe, mas o toque do outro.
Paródia do texto : "O Boxeador", de Ana Janaína, publicado aqui