sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O boxeador



Sou um boxeador.


Me preparo para o ringue:

            enfaixo os pés com um cuidado amoroso, a atadura dando a volta para esconder o dedo mindinho;

            subo pela corda, ducentenas, tricentenas, milésimas, a ficção da infância,

            minhas sapatilhas são cor de pele

            e meu maiô é dourado, sem figuras,

            sou muito tradicional,

            purpurina nas minhas sobrancelhas.         



Um nadador que não sabe nadar, mas também faz os seus preparativos.

            (Kafka, by Deleuze)



No ringue:

sem sopros, sem intenções, sem meias expressões.

(minha mãe dizia: “sofrer para bonita ser”)

mas o truque penoso, o mais poderoso,

            curva, salto, retomada

peito de pombo, cintura esquerda, rim.



a pele é uma maçaroca de hematomas, cascas de machucados, por debaixo tendões distendidos e religados, ligamentares, ossos que se cruzaram ao contrário, um alfabeto em cauterização, o sangue coagulado nos hematomas flui quente para o rosto, para a palma das mãos, para a planta dos pés. 
O ombro deslocado faz deslizar como se escorrega ao sonho.

Porque não se teme a queda, mas a suavidade da queda;
não o chão, mas se abandonar sem reservas; não a dor do golpe, mas o toque do outro.
Paródia do texto : "O Boxeador", de Ana Janaína, publicado aqui